Os paulistanos, os paulistas, enfim, quase todos
os brasileiros, estão perplexos, desapontados
e assustados com o acidente de grandes proporções
havido na última sexta-feira, 12 de
janeiro de 2007 com o colapso da Estação
Pinheiros do Metrô de São Paulo,
durante a construção da Linha
4, Amarela.
De repente, a imprensa, a mídia em geral
e a população perceberam a importância
da engenharia civil pelo caminho mais doloroso.
Há anos o setor tem sido relegado a segundo
plano, apesar de responsável direto pela
infra-estrutura do país, que atende a
todas as demais engenharias, atividades industriais,
saúde, educação, transporte,
ou seja, é o engenheiro civil o grande “construtor” da
melhoria da qualidade de vida da sociedade, dominando
e transformando o ambiente para melhor servir
ao homem.
Não poderia ser diferente: quando a
engenharia falha, as conseqüências
podem ser gravíssimas. Uma ponte, um edifício,
um viaduto, uma estrada, uma barragem, uma galeria
de águas pluviais ou de esgotos, uma obra
de Metrô, e até uma simples casa,
devem ser cuidadosamente projetadas, construídas
com materiais resistentes e duráveis,
operadas corretamente e submetidas a manutenção
preventiva e corretiva ao longo de sua vida útil,
assegurando proteção, segurança,
conforto, saúde, economia, rapidez, salubridade
aos seus usuários. O “patrimônio
construído” do país é um
dos maiores bens de uma nação e
está diretamente ligado ao seu desenvolvimento
social, industrial e de bem estar.
Como essa engenharia, uma nobre atividade técnica
e de tamanha importância e tradição,
foi permitir que as obras nessa Estação
Pinheiros chegassem ao colapso? Quem são
os culpados?
Para identificar os culpados, será necessário
cumprir as seguintes GRANDES ETAPAS:
- 1. Formular uma ou mais hipóteses
adequadas e consistentes sobre o MECANISMO
do acidente:
Aqui cabe ouvir todos (profissionais
e leigos) e deixar a mente fluir “tempestade
cerebral”, juntando um pouquinho
de cada um até a formulação
de uma hipótese bem viável
e forte. O ideal nesta fase é contar
com um grupo técno-científico
multidisciplinar coordenado por um
engenheiro de opiniões flexíveis.
Vários especialistas de diferentes
entidades de elevada credibilidade
deveriam fazer parte deste processo
e certamente o farão;
- 2. Com base nessa(s) hipótese(s),
reunir e analisar toda a documentação
existente na busca de “demonstrações” ou “provas” da(s)
hipótese(s) formulada(s). Em paralelo
e também com base nessa(s) hipótese(s)
sair a campo com muita astúcia, cuidado
e atenção na busca de “indícios
evidentes” e “provas experimentais
e materiais” que permitam comprovar
ou negar a(s) hipótese(s) anteriormente
formuladas:
Esta etapa requer pessoal experimentado
em perícias, vistorias, inspeções,
ensaios, análises, de forma
a reduzir o risco de perda, destruição
involuntária ou mascaramento
de “provas”. Requer também
muita ética, honestidade,
competência, formação.
De qualquer maneira, o ideal é que
todo este processo de investigação,
inspeção, análises
seja sempre muito transparente, com
a participação de várias
Entidades;
- 3. Formular um DIAGNÓSTICO
final, consubstanciado e consistente do ocorrido,
onde fique claro e transparente, no mínimo,
o seguinte:
- Mecanismo:
qual o mecanismo consistente, efetivo
e real de ruptura ocorrido, ou seja,
como o colapso ocorreu;
- Agentes causadores:
enumerar os agentes causadores do
colapso, distinguindo os agentes
diretos (espessura insuficiente de
rocha sobre o arco do túnel,
resistência inadequada dessa
rocha, dinamite em quantidade excessiva,
ou dinamite em local inadequado,
ausência de dados de monitoramento,
ou monitoramento inadequado, etc.)
dos agentes aceleradores ou agravantes
(chuva, movimento do tráfego
na marginal, interferência
nefasta das fundações
da grua nas paredes do poço/shaft,
etc.);
- Origem do problema:
considerando o processo complexo
de uma construção dessa
natureza identificar em que fase
o problema ocorreu:
:: No ante-projeto (do Metrô,
no caso);
:: Na licitação e quantitativos
estimados;
:: No projeto estrutural e geotécnico;
:: Na construção propriamente
dita;
:: Na fase de monitoramento de recalques
e alinhamento;
:: No controle de qualidade; ou,
:: No gerenciamento de projetos
e execução.
Assim, considerando poder-se-á precisar
em qual dessas fases houve o início
do problema. Por exemplo: será que
o projeto executivo era adequado?
Será que o ante-projeto era
uma boa previsão do real?
Será que o gerenciamento da
obra foi suficientenmente ágil
para compatibilizar as informações
de monitoramento de recalques com
revisão de projeto? E assim
por diante.
Do ponto de vista de vários especialistas,
o papel direto da engenharia termina com esse
DIAGNÓSTICO TÉCNICO no qual não
são indicados culpados. Um bom diagnóstico
técnico descreve o mecanismo, os agentes
causadores, indica a origem do problema, a fase
de onde o problema principal ocorreu, mas não
dá NOMES aos culpados. Identifica a fase
do processo que falhou mas nunca nomes.
Indicar culpados é papel e dever da JUSTIÇA,
com base nesses relatórios técnicos
produzidos pela engenharia, que não serão,
jamais, de uma única Instituição
ou propriedade de uma só das partes envolvidas.
Deverão existir vários relatórios
técnicos, inclusive também um importante
laudo do perito eleito pelo Juiz, que, no seu
conjunto serão analisados e julgados no âmbito
da JUSTIÇA, e não mais da engenharia
civil.
No âmbito judicial provavelmente ocorrerão
um processo administrativo que envolve o poder
público (o poder executivo); um processo
criminal e um processo cível relativo às
indenizações de bens materiais.
Falha zero é impossível e inviável
economicamente. Reduzir riscos de falhas e aprendizado
permanente é obrigação da
engenharia. Cabe agora aprender a lição
e fortalecer as ações naquela fase
do processo que mais falhou, pois isso pode,
inclusive, indicar uma deficiência patológica
de contrato, de formação universitária,
de legislação profissional, de
normalização e outras que precisem
sofrer uma evolução.
Eng.
Paulo Helene
Presidente do Instituto Brasileiro do Concreto
IBRACON www.ibracon.org.br
MSc, PhD. Professor Titular da Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo.
Prof. de Patologia e Reabilitação
de Estruturas de Concreto
Coordinador Internacional de la Red Rehabilitar
CYTED
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Life Design
paulo.helene@poli.usp.br
57 anos
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