Painel aponta as finalidades comuns das linguagens arquitetônica e tecnológica

Renomados arquitetos e engenheiros discutem as contribuições recíprocas entre a engenharia e a arquitetura

 

Disciplinas irremediavelmente complementares, separadas historicamente apenas em razão do avanço tecnológico experimentado pela humanidade a partir do século XVIII. Essa foi a visão comum nas exposições de arquitetos e engenheiros no painel “Arquitetura e Engenharia: linguagens e culturas diferentes com um objetivo comum”, ocorrido em 3 de setembro, durante o 47º Congresso Brasileiro do Concreto CBC2005.

Essa complementaridade vai mais longe do que o senso-comum é capaz de enxergar. Segundo o engenheiro Mário Franco, renomado projetista de estruturas (Hotel Unique), mesmo nos stone henges, monumentos de pedra da Pré-História, é possível ver a confluência da arquitetura – a organização do espaço – com a engenharia – a tecnologia de transporte e de montagem.

Antes da Revolução Industrial, os construtores caracterizavam-se por seus conhecimentos nas áreas da arquitetura e da engenharia. Vitruvio, que viveu no século I a.C. e cujo legado formou as bases da teoria classicista da arquitetura, postulava que uma obra deveria ser funcional, estável e bela. “Em obras históricas como o Panteão de Roma e El Escorial Monastério, arquitetos e engenheiros eram a mesma pessoa”, destacou o engenheiro espanhol Hugo Corres Peiretti, projetista de pontes, canais e portos com diferentes tecnologias.

Corres defendeu que a formação de engenheiros precisa contemplar a linguagem arquitetônica, “pois essa adiciona um elemento importante para o avanço da engenharia: a criatividade”. “A arquitetura espelha a tecnologia de uma época e representa os contornos do possível dessa tecnologia”, completou Mário Franco.

Prova de que o arquiteto precisa conhecer os avanços tecnológicos de sua época pode ser extraída das obras ousadas do arquiteto Ruy Ohtake, também presente no evento. A intrepidez do hotel Unique em levantar uma coluna de concreto de 25m com 3cm de espessura só pôde ser viabilizada pelo conhecimento do arquiteto sobre os avanços recentes experimentados por esse material. “O concreto é material muito moldável para os desenhos dos arquitetos, devido às suas características de variabilidade, riqueza, sutileza e grandiosidade, razão do seu uso crescente em obras arquitetônicas”, esclareceu Ohtake.

Já, o caminho inverso, ou seja, a necessidade dos engenheiros em se habituarem com a linguagem dos arquitetos, foi trilhado pela exposição do engenheiro Bruno Contarini, projetista de obras emblemáticas. Contarini detalhou os projetos estruturais de quatro obras de Oscar Niemeyer: a Universidade de Constantine (Argélia, 1969), cujo auditório em forma de casca apresenta um vão de 80m com apenas quatro pontos de apoio; a Editora Mondadori (Itália, 1968), que se assemelha a uma estrutura pendurada; o Superior Tribunal de Justiça (Brasília), obra que exigiu setenta plantas de cálculo diferentes; e o Museu de Arte Contemporânea (Rio de Janeiro), cujas peculiaridades no desenho arquitetônico levou o engenheiro a buscar novas soluções tecnológicas.

“O painel proporciona o encontro e a aproximação de engenheiros e arquitetos em torno de um interesse comum, qual seja: que a obra busque a segurança e a durabilidade, mas também que seja criativa e inovadora”, pontuou o arquiteto Paulo Amaro, coordenador do painel.

Em razão do exposto, concluiu o arquiteto Acácio Gil Borsói, que assina obras importantes como o Edifício do Banco do Estado do Recife (Bandepe) e o Conjunto Administrativo de Uberlândia, “a arquitetura é uma construção segundo uma intenção que concilia funcionalidade e expressividade; uma forma de construir que traz admiração e lembrança”.