Painel discute segurança de barragens

Profissionais debatem suas visões de projeto, inspeção e segurança de barragens

 

Os recentes episódios de rompimento de barragens têm mobilizado a comunidade técnica para a discussão do problema de sua segurança. Durante o 47º Congresso Brasileiro do Concreto CBC2005, os especialistas em obras hidráulicas tiveram uma grande oportunidade de se reunirem e debaterem o assunto.

O painel foi dividido em três partes. O engenheiro José Marques Filho, gerente de projetos na Companhia Paranaense de Energia (Copel), abordou as diversas fases de projeto de uma usina hidrelétrica. O engenheiro Alberto Cavalcanti trouxe a experiência da Companhia do São Francisco (Chesf) no diagnóstico e adoção de medidas corretivas quanto ao problema das reações álcali-agregado. Por fim, o diretor do Departamento de Obras Hídricas do Ministério da Integração Nacional, engenheiro Rogério de Abreu Menescal, apresentou a metodologia de cadastramento de barragens, para fins de sua inspeção.

A complexidade de uma obra hidráulica é de tal dimensão que o modelo representa uma simplificação da realidade, comportando variáveis não conhecidas e uma análise probabilística sobre os estados limites últimos e de serviço. O resultado é a possibilidade de falha, mesmo adotando-se todos os procedimentos corretos.

As causas mais freqüentes das falhas relacionam-se com a interação fundação-estrutura – percolação e erosão da fundação; fraturas; degradação da rocha quando da formação do reservatório –, com as reações deletérias no concreto – reações álcali-agregado; sulfetos; e ataques do reservatório – e com as falhas de projeto e execução – fenômenos térmicos; fluência; e controle de qualidade inadequado.

Estes riscos são intensificados pela questão da financiabilidade do projeto, que determina a pressão sobre equipes, diminuição de custos de investigação, diminuição de prazos e utilização de soluções existentes que nem sempre são aplicáveis à totalidade dos empreendimentos.

Investigações inadequadas ou incompletas em projetos de obras hidráulicas são fator de risco para o aparecimento das reações álcali-agregado em obras construídas. Estas reações químicas entre o hidróxido alcalino do cimento e o óxido de silício dos agregados (areia ou brita), minerais reativos na presença de água, forma um gel expansivo ao redor dos agregados, que se contínuo pode ter as seguintes conseqüências para a barragem: redução da resistência à tração e à compressão; redução do módulo de elasticidade; fissuração; e abertura ou fechamento de juntas de contração e de construção. Estas patologias na estrutura acarretam, por sua vez, os seguintes problemas na usina hidrelétrica: inclinação do eixo do conjunto turbina/gerador; ovalização do anel de descarga da turbina e do estator do gerador; redução de folgas entre o anel de descarga e o rotor da turbina; aumento de tensões na aletas fixas da turbina; inclinação do pré-distribuidor; redução de folgas nas guias de comportas; e aumento das tensões no conduto forçado.

Rogério de Abreu Menescal finalizou as apresentações comentando o Programa Nacional de Cadastramento de Barragens, iniciado em abril de 2004. No ano passado, o excesso de chuva e a falta de manutenção de infra-estrutura hídrica provocaram a ruptura de mais de 400 barragens, causando mortes, além de danos materiais, ambientais e sociais à região. “É estimada em 300.000 barragens, de todos os tamanhos e tipos, o número dessas obras em território brasileiro. Tais obras não tiveram ao longo dos anos os cuidados necessários à manutenção, única garantia do prolongamento da vida útil dessas obras hidráulicas”, expôs Menescal. Justamente, para conter o desperdício hídrico e os acidentes em barragens, foi lançado o programa pelo governo federal.

O programa estabelece metodologia de prevenção através do diagnóstico periódico da situação sobre a segurança de barragens destinadas à acumulação de água, ao aproveitamento de potenciais hidráulicos, a disposição final ou temporária de estéril e de rejeitos de mineração e a acumulação de resíduos industriais. Estabelece três grupos de ações: participação direta de equipes do Ministério da Integração Nacional em barragens de propriedade ou responsabilidade deste ministério; os diversos órgãos fiscalizadores estaduais e municipais são responsáveis pelas barragens de usos múltiplos em todo território nacional; e o apoio a medidas que permitam o estabelecimento de um arcabouço legal-institucional que garanta a continuidade de ações preventivas nos próximos anos.

O painel concluiu pela necessidade de formulação de uma norma brasileira de segurança de barragens, mobilização consolidada no Congresso Brasileiro do Concreto e iniciada por atividades do Comitê Brasileiro de Grandes Barragens (CBDB) e hoje objeto de Comitê Técnico do IBRACON. “ O painel abordou temas atuais relativos a engenharia de obras hidráulicas: a segurança de barragens implica na segurança de muitas pessoas; e os riscos são intensificados pelos padrões de financiamento atualmente adotados”, destacou Luiz Prado, diretor conselheiro do IBRACON e coordenador do painel.